ERA UMA VEZ, UM EREMITA...


Certa feita, um velho sábio havia abdicado da vida social. Tudo para ele, em sociedade, tornara-se um tédio e, por conta disso, decidiu morar no cume de uma montanha. Lá ele permaneceu pelos felizes anos que esteve isolado, como um ermitão, meditando e iluminando-se. Em plena unicidade com o Todo.


Um dia, um homem apareceu diante do sábio dizendo que ouvira rumores de um homem santo que vivia no alto daquela encosta. O homem disse que estava com sérios problemas e decidira subir para que o sábio sanasse suas dúvidas e afagasse seu coração. Em sua benevolência, o sábio emprestou seus ouvidos e ofereceu conselhos ao homem que, depois de ter suas tristezas sanadas, partiu com um sorriso no rosto.


Dias depois, um grupo de pessoas havia chegado no cume da montanha onde estava o sábio. Disseram que tinham muitos problemas e buscavam por conselhos. Mais uma vez o sábio concedeu ouvidos e orientações. Eles partiram felizes, tomados de esperança. Dias depois essa mesma cena se repetiu sucessivamente e o grupo de pessoas aumentava mais e mais, para a tristeza do sábio que, se retirou para aquele cume justamente para experienciar a solitude. Como o sábio era muito misericordioso e benevolente, ainda que a contragosto, oferecia conselhos aos corações aflitos.


Até que um dia, um grupo imenso de pessoas havia aparecido no alto da montanha. Eles disseram que viram em um jornal que no alto da montanha morava um homem santo que oferecia conforto aos corações despedaçados. Para a surpresa do sábio, o local estava abarrotado de pessoas cujos semblantes estavam tomados de tristeza.


Ainda sentado em posição de lótus, o velho disse que lhes ofereceriam orientações se eles prometessem que, ao partirem, jamais permitiriam que qualquer outra pessoa subisse àquele cume, pois gostaria de manter-se em profunda meditação. Todos arregalaram os olhos, pois sabiam que aquela seria a última audiência com o santo homem. Todos concordaram.


O sábio levantou-se em silêncio, respirou fundo e exclamou: “FALEM!” Um jovem começou a falar sobre seus problemas e foi cortado por mais três que desejavam serem ouvidos. Mas estes foram interrompidos por mais nove pessoas, que mal podiam falar, por causa de mais quinze. Em pouco tempo, haviam gritos, choro e ranger de dentes, pois ninguém mais podia ouvir ninguém e todos queriam falar ao mesmo tempo. Eles estavam extremamente desesperados, pois aquela era a última chance de suas vidas de ouvir os conselhos de um homem santo.


O sábio então tomou fôlego e exclamou: “QUIETOS!” Todos silenciaram. E então, vagarosamente, o santo homem tomou para si uma cesta e um bloquinho de papel e passou para o rapaz que estava a sua frente, pedindo que escrevesse o que estava afligindo seu coração e que todos assim o fizessem. Quando todos terminaram de escrever suas lamúrias, o sábio pegou o cesto, embaralhou e entregou ao rapaz mesmo que estava a sua frente:


“Escolha um papel e passe a cesta aos demais. ” Assim que todos escolheram um bilhete, ficaram chocados com o que estava escrito. “Se não gostaram dos seus próprios problemas, tomem para si os problemas que acabaram de ler”, disse o sábio “mas se não gostaram do que estava escrito no bilhete, alegrem-se pelos próprios problemas”.


Depois de algum tempo em silêncio, uma pessoa se levantou com um sorriso em seu rosto, agradeceu e desceu a montanha. Mais dois, mais um grupo e, por fim, todos deixaram a montanha do sábio. Enquanto desciam, começaram a compreender que, por mais que estivessem sofrendo, sempre haveria alguém cuja tristeza era muito maior que a sua.


E mantiveram a promessa, deixando que nenhum outro aventureiro voltasse a perturbar a paz interior de um homem santo.

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